Coluna
O Nordeste não é uma região difícil, é uma região mal entendida
Quem cria no semiárido não precisa de pena nem de receita adaptada de fora. Precisa que a recomendação seja feita olhando para o pasto que ele tem.
Por Francisco Marcos Gomes FeitosaMagnata do SalFundador da VERMEFÓS. Mais de 30 anos em nutrição animal, do balcão da agropecuária ao cocho.
Foto: UsuárioPar, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
"Difícil" explica muito pouco
O Nordeste aparece na conversa do setor como o lugar onde as coisas são mais difíceis. É uma descrição preguiçosa, e que serve de desculpa para muita coisa. Difícil comparado com o quê? Há rebanho produzindo aqui, ano após ano, com o que tem e com o que chove. Isso não se chama dificuldade: chama-se competência em outra condição.
Quem nasceu no sertão do Ceará aprende cedo que a escassez não é um defeito do lugar. É a regra do jogo, conhecida de antemão, prevista no calendário, e existe técnica para jogar com ela. O que não existe é técnica pensada em outro lugar que funcione aqui sem tradução.
Recomendação importada chega fora de lugar
Boa parte do que circula como boa prática foi pensada para um pasto que cresce a maior parte do ano. Aplicada onde a chuva se concentra em poucos meses, essa mesma prática chega fora de contexto. Não é errada em si: está deslocada. E quando não funciona, a culpa costuma ser atribuída à região, nunca à recomendação nem a quem a fez.
O erro que mais vejo não é falta de tecnologia. É tecnologia respondendo com capricho a uma pergunta que o produtor daqui não fez. O sertão não precisa de menos ciência; precisa de ciência que comece olhando o pasto que existe, e não o pasto do folheto.
O que o semiárido exige de verdade
A nutrição aqui tem outro compasso. O ano tem um antes e um depois muito marcados, e o cocho de mineral é um dos poucos pontos que não deveria parar em nenhum dos dois. Constância pesa mais do que sofisticação: quem mantém o cocho abastecido todos os dias do ano sai na frente de quem tem fórmula elaborada e fornecimento irregular.
E exige uma coisa menos técnica: parar de tratar o produtor do semiárido como quem merece o produto de sobra. Poder de compra menor foi respondido, durante muito tempo, com produto mais pobre, como se rebanho em condição mais dura precisasse de menos e não de mais. Isso foi decisão de quem fabrica, não fatalidade da região.
Raiz não é limite
Nascer aqui não restringe o alcance: define o olho. Quem formula pensando no cenário mais duro termina com um produto que também funciona no cenário fácil. O contrário raramente se sustenta, e é justamente o contrário que o mercado costuma fazer.
Não somos a região que precisa de condescendência. Somos a região onde o produto é testado a sério, todo ano, sem aviso prévio e sem condição de laboratório. Quem passa no sertão passa em qualquer lugar do Brasil.
Conteúdo informativo. Não substitui a orientação de um responsável técnico para o seu rebanho.
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