Coluna
O preço do saco é a pior forma de comparar mineral
Comparar suplemento pelo preço da embalagem é comparar aquilo que menos importa. A conta que decide não está na nota fiscal: está no cocho.
Por Francisco Marcos Gomes FeitosaMagnata do SalFundador da VERMEFÓS. Mais de 30 anos em nutrição animal, do balcão da agropecuária ao cocho.
Foto: Christopher Borges, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons
A conta que todo mundo faz primeiro
No balcão, a primeira pergunta é quase sempre o preço do saco. É uma pergunta legítima: é o único número que aparece sem esforço, impresso na nota, igual para todo mundo e fácil de comparar. O problema é que ele é também o número que menos informa sobre o que vai chegar ao animal. Todo mundo sabe cotar saco. Quase ninguém cota nutrição.
Saco é unidade de embalagem, não unidade de nutrição. O rebanho não recebe sacos: recebe uma quantidade de nutriente por dia, multiplicada pelos dias do ano. Dois produtos empilhados lado a lado, com preços parecidos, podem entregar coisas bem diferentes ao longo de uma estação inteira, porque diferem no que têm por quilo e na quantidade que o animal consome por dia.
Preço por saco, custo por cabeça
A comparação que vale tem três números, e o preço da embalagem sozinho não é nenhum deles: quanto o animal consome por dia, quanto o produto entrega nessa quantidade e quanto isso custa por cabeça por dia. Feita a conta, a ordem dos preços muda com frequência. Às vezes se inverte por completo, e o produto que parecia caro na pilha sai barato no cocho.
Escrevo isto sabendo que trabalho contra parte do meu próprio setor, e contra mim junto. No dia em que o pecuarista passar a comparar custo por cabeça por dia, muito argumento de venda deixa de funcionar. O meu também, se eu não me sustentar nessa conta. Prefiro assim: quem vende bem só precisa temer o comprador que não calcula.
O que o saco barato costuma cobrar depois
Não existe mágica em mineral. Matéria-prima tem preço, e é mais ou menos o mesmo preço para quem fabrica. Quando um saco sai muito abaixo do resto, alguma coisa cedeu: menos daquilo que custa, mais daquilo que enche. Veículo, o que dá volume à mistura, faz parte de qualquer fórmula e não é defeito; o que não pode é ser vendido pelo preço daquilo que ele não é.
E existe um custo que não entra em nota nenhuma: o do ano perdido. Novilha que atrasa, vaca que demora a voltar, boi que chega mais leve no fim da seca. Essa despesa não aparece em linha alguma da planilha, mas é paga do mesmo jeito, e costuma ser muitas vezes maior do que a diferença que se economizou no saco.
Comparar dá trabalho, e é por isso que funciona
Comparar direito leva quinze minutos, dois rótulos e uma calculadora. Níveis de garantia, consumo previsto, preço. É um trabalho chato, sem nenhuma emoção, e é a única coisa que protege quem compra da conversa de quem vende, a minha inclusive. Contra uma conta feita não existe argumento de vendedor que resista.
Quem faz essa conta deixa de ser comprador de saco e passa a ser comprador de nutrição. São duas relações diferentes, e a segunda é bem mais difícil de enganar. Desconfie do fabricante que torce para você não fazê-la.
Para ir além
Conteúdo informativo. Não substitui a orientação de um responsável técnico para o seu rebanho.
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