Coluna
O que o balcão ensina e o laboratório não
A fórmula se escreve em planilha. O problema que ela precisa resolver entra pela porta da agropecuária, quase sempre disfarçado de outra coisa.
Por Francisco Marcos Gomes FeitosaMagnata do SalFundador da VERMEFÓS. Mais de 30 anos em nutrição animal, do balcão da agropecuária ao cocho.
Foto: Carlos Ebert, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons
O problema chega disfarçado
Ninguém entra numa agropecuária dizendo que o rebanho está com deficiência mineral. Entra dizendo que o gado está sem viço, que as vacas estão demorando a voltar, que o saco de mineral está durando tempo demais no cocho. O nome técnico vem depois, quando vem, e quase sempre chega junto de uma queixa sobre o produto, que é a parte visível da história.
Quem passa anos atrás de um balcão aprende que a primeira versão do problema quase nunca é o problema. É o sintoma que incomodou primeiro. Traduzir uma coisa na outra não está escrito em bula nenhuma: se aprende ouvindo, e ouvindo muita gente diferente descrever a mesma coisa com outras palavras, até que a repetição comece a fazer sentido.
Antes de recomendar, perguntar
Quantos cochos tem o piquete, onde estão, a que distância fica a aguada, quando foi a última vez que ficaram vazios. São perguntas sem nenhum brilho, não custam um centavo de formulação e resolvem boa parte do que chega ao balcão fantasiado de problema de produto.
Isso é incômodo para quem vive de vender. A resposta honesta muitas vezes é que o problema não está no produto que ele está usando, e essa resposta não emite nota fiscal. Quem só sabe fórmula responde com fórmula, porque fórmula é o que tem na mão. A conta chega depois, quando o produto trocado não resolve aquilo que não era dele resolver.
Fórmula é resposta, não é pergunta
Uma planilha de formulação responde com precisão a uma pergunta que alguém precisou formular antes. A qualidade do produto depende da qualidade dessa pergunta. Pergunta malfeita e cálculo impecável dão num produto correto no papel e inútil no cocho, e o pior é que ninguém consegue apontar o erro: cada etapa, isolada, está certa.
É por isso que duas marcas podem ter rótulos parecidos e se comportar diferente no campo. Uma foi pensada contra um problema real que alguém ouviu de perto, com o rebanho descrito na sua frente; a outra, contra um espaço vago na prateleira e uma faixa de preço para ocupar.
O balcão cobra, e cobra rápido
O balcão tem uma vantagem que laboratório nenhum tem: o cliente volta. Volta em quarenta dias, na mesma cidade, e diz na sua cara se funcionou. Não existe recomendação ruim que sobreviva muito tempo a esse tipo de auditoria, e não existe folheto que substitua o vizinho contando o que aconteceu no pasto dele.
Não estou dizendo que técnica não vale. Vale, e sem ela não se formula nada que preste. Estou dizendo que técnica sem escuta formula no escuro, com precisão de decimal e pontaria de quem não viu o alvo. Nutrição não se aprende só de um lado do balcão: se aprende dos dois.
Conteúdo informativo. Não substitui a orientação de um responsável técnico para o seu rebanho.
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