Coluna
O rótulo é um contrato, e quase ninguém lê antes de assinar
Tudo o que um fabricante promete cabe no verso do saco. É o único lugar onde ele pode ser cobrado, e é o texto menos lido da fazenda.
Por Francisco Marcos Gomes FeitosaMagnata do SalFundador da VERMEFÓS. Mais de 30 anos em nutrição animal, do balcão da agropecuária ao cocho.
Foto: Carlos Ebert, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons
O único documento da relação
Entre quem fabrica e quem cria não existe contrato assinado. Existe um saco. Tudo o que a empresa promete sobre aquele produto está impresso no verso, em letra miúda, porque a lei exige que esteja: quem responde pelo produto, o registro do estabelecimento no Ministério da Agricultura, os níveis de garantia, o modo de fornecer e o consumo esperado.
Quem escreve esse texto sabe que ele vai ser lido por poucos e conferido por menos ainda. É exatamente por isso que ele funciona como teste de caráter da empresa. O que se escreve sabendo que ninguém vai cobrar diz mais sobre uma marca do que qualquer campanha que ela pague.
O verso do saco virou espaço de propaganda
Parte do setor trata o rótulo como área nobre de marketing: nomes que sugerem desempenho, adjetivos sem unidade, ingrediente citado sem dizer quanto entrou. Nada disso é informação. Informação é número com unidade ao lado, referido a uma quantidade fixa de produto. Dois produtos só se comparam onde há número; onde há adjetivo, não há comparação possível.
É desconfortável escrever isto de dentro da indústria, porque vender com uma frente bonita é mais fácil e mais barato do que sustentar um verso honesto. Só que a frente não chega ao cocho. Ao cocho chega o conteúdo, e o conteúdo é aquilo que está declarado atrás, ou deveria estar.
Prometer é fácil; repetir é que é difícil
Fazer um lote bater com o rótulo é simples: qualquer fábrica faz. Difícil é o quadragésimo lote, num ano de matéria-prima cara, com o comprador sem conferir nada e sem meio prático de conferir. É ali, longe de qualquer fiscalização e de qualquer cliente olhando, que o rótulo deixa de ser papel e vira decisão.
Se a composição muda para caber no preço, o rótulo tem que mudar junto, e quem compra tem que ser avisado. Quando muda uma coisa e não muda a outra, o assunto já não é formulação nem custo de produção. Passou a ser palavra.
O que eu faria no lugar de quem compra
Ler o verso antes de pagar. Fotografar o rótulo e guardar a foto no celular. Daqui a seis meses, comparar com o saco que estiver no galpão. Custa um minuto, não depende de laboratório nem de técnico, e é a forma mais barata que existe de saber se a empresa continua sendo a mesma empresa.
Rótulo não é embalagem: é a palavra da empresa, impressa e datada. Fabricante que não gosta de ser lido já disse, sem dizer, o que pensa de quem compra. E quem escreve o verso contando que vai ser cobrado escreve diferente: escreve menos, e cumpre mais.
De onde vêm os números
- 1Ministério da Agricultura e Pecuária. Alimentação animal: registro de estabelecimentos e produtos e regras de rotulagem. https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/insumos-agropecuarios/insumos-pecuarios/alimentacao-animal
Para ir além
Conteúdo informativo. Não substitui a orientação de um responsável técnico para o seu rebanho.
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